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Marcha das Vadias

29 maio 2012

Neste domingo, dia 26/05/2012, aconteceu a “Marcha das Vadias” no Parque Farroupilha (Redenção) em Porto Alegre, RS. O mesmo protesto aconteceu em outros locais, senão no mesmo dia, com pequena diferença de data [há notas explicativas no fim da postagem].

Tal protesto desencadeou uma série de comentários nos veículos de comunicação, nas redes sociais e no boca-a-boca, diário – objetivo atingido: visibilidade.
Acontece que tais comentários estão carregados de desinformação e preconceito, ainda que, felizmente, hajam os belos comentários de compreensão e apoio.

No rastro da Marcha, vão os que reivindicam o seu direito natural de vestir-se como bem entendem, mas também vão os que querem mais do que isso: querem igualdade. E este “querer mais”, é o mínimo que se pode querer!!!!!!
Todos somos humanos. Todos temos que ter os mesmos direitos – embora, saibamos que ainda não temos!!.

É necessário entender que as pessoas podem vestir-se como desejarem, sem que isto possa ser tomado como desculpa para externar ‘nossas’ doenças! O que vemos (ou fingimos não ver), diariamente, são doentes aproveitando-se de um “senso comum” (completamente descabido) de que mulher vestida com roupas curtas ou transparentes são “vadias” (com o sentido de puta, prostituta, etc…) e, valendo-se deste “conceito”, tomam não sei de onde, o direito de agredir estas mulheres. Esta agressão vai desde um simples assobio, passando por profusão de palavras ofensivas, contato físico, seja passando-lhes a mão, agarrando-as, esfregando-se nelas, até golpes diversos com o intuito de machucá-las ou matá-las, incluindo o estúpro!!!
Mesmo que estas mulheres fossem “vadias”, isso não seria motivo para agressão de qualquer tipo. Se não te interessa relacionar-se com vadias, também não te diz respeito controlar suas vidas, quiçá, sua morte!!!

Se achas vulgar, certa maneira de vestir de outrém e alegas que isto é mau exemplo para teus filhos, educa, tu mesmo, teus filhos com bons exemplos. Não jogue a culpa de tua incompetência educacional no modo de viver dos outros. Por que não vais ao Planalto agredir os políticos corrúptos? Por que não sobes a favela para agredir os traficantes? Porque, na verdade, isso tudo é falso! Na verdade, és um covarde que deseja causar mau ao mais fraco. Não queres que os outros tenham uma vida “decente”, queres tu, externar teu desejo de agressão, teu desejo de estuprar, tuas baixezas de todo tipo, e usas como subterfúgio, este “senso comum” condenatório aos que se apresentam desta ou daquela maneira.
Este “senso comum” que aceita a agressão contra os iguais, é herança de práticas como as da Inquisição, onde o “bem” podia matar o “mau” e estes dois conceitos eram definidos por uma instituição específica, não pelo verdadeiro senso comum.
É herança, também, das práticas exercidas na Ditadura Militar, tão recente em nosso país e cujas cicatrizes continuam muito vivas no corpo e na alma de diversos brasileiros – até a Presidente do país leva esta memória, o que nos demonstra o quão presente é este espectro malígno.

Enquanto as pessoas “de bem” (verdadeiras), não abrirem os olhos para estes detalhes, elas estarão ingenuamente (mas não, inocentemente) colaborando para a perpetuação destes crimes, desta doença, deste espectro, deste medo, desta dor. Abram os olhos, os que são bem intencionados, e percebam que seu silêncio diante dos crimes, sua tolerância diante das “piadinhas” e assovios, sua condescendência com a repressão aos que tem um viver diverso dos seus, são na verdade, mecanismos colaboradores para a eterna podridão! Embora deva-se pensar em TODAS as pessoas, se isso lhes é difícil, pensem que daqui há pouco pode ser uma mãe, uma irmã, prima, filha, amiga de vocês que pode ser vítima de um bandido, de um doente, que se aproveita deste silêncio e deste “senso comum”.

Conclamo-os a usarem a razão, o raciocínio, a percepção. E não, apenas, isso; conclamo-os a engrossar o coro dos que reivindicam! A dar voz às tuas angústias! Exponha o que te incomoda e busca esclarecimento! Busca auxílio para entender por que alguns estão gritando!!! Busca auxílio para poderes gritar também!

Só a união é capaz de triunfar!

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Notas:

A Marcha Das Vadias ou SlutWalk (em inglês, marcha das putas), teve orígem em Toronto, no Canadá após a declaração de um policial, daquela cidade, de que as mulheres poderiam evitar estúpros se não se vestissem como putas. Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/SlutWalk
Tal afirmação desencadeou um protesto, onde as pessoas declaram e reivindicam que suas roupas, sua maneira de vestir, não justificam crimes, quiçá, tamanha violência como um estúpro.
Usando uma lógica irônica, adotaram a palavra “slut” como estandarte do protesto, afirmando que vestir-se deste ou daquele jeito, não lhes faz “putas”.

Em português, optou-se pelo uso do termo “vadia”, que na linguagem popular significa “mulher de moral duvidosa”, embora, segundo o dicionário Priberam:
vadio |à|
(latim *vagativus, vagabundo)adj. s. m.
1. Que ou aquele que não tem ocupação ou que não faz nada. = OCIOSO, TUNANTE, VAGABUNDO
2. Que ou aquele que não gosta de trabalhar ou de se empenhar. = MALANDRO

Links:

Marcha das Vadias Porto Alegre:
http://marchadasvadiaspoa.tumblr.com/

Página do grupo destinado a organização da Marcha das Vadias em Porto Alegre:
https://www.facebook.com/groups/175759745880

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