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Porto Alegre Em Cena

29 agosto 2012

Certamente, Luciano Alabarse sabia que só tinha a ganhar com suas declarações no caderno de apresentação do Em Cena 2012.
Ele sabia que se sua balela fosse engolida a “fera” estaria vencida. Sabia, também, que se fosse refutado, estaria “em cena”, “dando ibope”.
Cônscio disso, prefiro fazê-lo brilhar, ainda mais, refutando seus argumentos.

“Há um tipo de frequentador do Em Cena que acha que tem o direito a entrar nos teatros do festival sem pagar.”
Provavelmente, isto seja verdade. Há gente de todo o tipo. Mas, não se pode colocar estas pessoas no mesmo saco daquelas não podem pagar R$80,00 ou mesmo vinte, por um espetáculo.
Sobre o dinheiro público destinado ao Em Cena, ele diz: “…verba orçamentaria que hoje banca apenas um quinto do seu orçamento.” – Por que não se faz um Em Cena cinco vezes menor, então?

Parafraseando Ariane Mnoucknine, ele brada: “a arte não é, e nunca foi democrática”. Pois bem, é justamente, aí, que queremos a DIFERENÇA.

O Em Cena, parece-me, foi criado na intenção de fomentar a cultura da cidade. E à época, sua proposta era trazer grandes espetáculos a preços acessíveis, já que teatro é caro, por aqui e não era tão abundante, em meados de 1993…. pelo menos, a propaganda feita a respeito do Em Cena era esta, mesmo que seus idealizadores tivessem outra idéia.

Em 2010 eu comprei cerca de vinte ingressos para os espetáculos…. comprei porque durante muitos anos eu estive na “Fila dos Sem”. Todo ano, eu comprava alguns ingressos do Em Cena, ganhava outros de amigos ou de pessoas que tinham sobrando e assistia outros espetáculos de graça na “Fila dos Sem Ingresso”. Quando eu tive dinheiro para comprar ingressos, fiz questão de comprar!
E eu comprei vinte ingressos para cerca de doze espetáculos. Os demais, presenteei alguém que foi comigo, ou DOEI na frente dos teatros, para quem estava por ali (como eu, anos atrás) na “esperança” de entrar.

Em 2011 eu ia fazer a mesma coisa, quando deparei-me com ingressos a CINQÜENTA REAIS!!! Que palhaçada é essa? Perguntei-me! Decidi que NÃO assistiria NENHUM espetáculo do Em Cena, PELA PRIMEIRA VEZ em dezoito anos!!! E conclamei muitos a fazerem o mesmo, em protesto. Não dei UM real ao Em Cena e não convidei NINGUÉM a dar mais um que fosse.
Este ano, deparo-me com ingressos a OITENTA REAIS!!! Os mais baratos, custam R$ 20,00. Bom, eu já sabia que o Em Cena tinha virado um show para elite, mas quando li o texto agressivo do Luciano, atacando “seu” público, o mesmo público que levou o Em Cena aonde ele chegou, isto me irritou, sobremaneira.

Outro “benefício” que me angustia é a “pré-venda”, a venda pela Internet. Este é outro instrumento malígno de elitismo. Todo mundo tem acesso à internet? Todo mundo tem conta bancária e pode/sabe fazer transações online? O Festival nem começou e o povo não pode comprar um ingresso. Não me oponho à idéia de que exista uma cota de, sei-lá, vinte porcento dos ingressos para venda online – isto também ajuda a incluir pessoas que por diversos motivos precisam garantir um ingresso, antecipadamente.

Aí, ele vem dar uma aula de democracia e compara-se a Aristóteles quando diz ter refutado os argumentos “falaciosos” dos inconformados. Parece-me que “falaciosos” são seus argumentos, inclusive o de evocar um morto do século IV a.C para defendê-lo.

Não acho que os espetáculos devam ser de graça (ainda que a idéia seja explêndida, se for possível executá-la), mas não acho que o Em Cena deva ser MAIS UM instrumento servindo às elites. Tudo bem, Luciano Alabarse entende que o “Em Cena” é dele e que sendo assim, deve servir a quem “ele” quiser e não ao povo porto-alegrense e demais pessoas “comuns”.
Seu objetivo é criar uma festival grandioso “broadwayano” e não um festival de teatro democrático e popular. É um direito que ele tem de desejar e lutar por seus desejos. Apoio-o neste sentido.
Mas também é desejo de uma população e de pessoas que fizeram o Em Cena ser o que é, graças à sua participação enquanto público, enquanto divulgadores e fomentadores, que este festival seja, cada dia mais abrangente! Que ele vá até o povo, à medida que consiga atrair o povo para os espaços de exibição. E isto só será possível com ingressos a preços acessíveis e com a venda efetuada na bilheteria dos teatros.

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