O homem feminista não existe

Ou se é homem, ou se é feminista. É o que defendem algumas pessoas.
Há um ‘quê’ de verdade nisso. Mas, há uma falha de definição: O que é ‘ser homem’?
Já escrevi aqui sobre machismo e alertei para o fato de que ‘ser homem’ é uma ilusão, já que ‘homem’ é uma alegoria. Leiam o post para entender.

Se o sujeito considera-se ‘homem’ num sentido além do biológico (e isto já é uma definição difícil, dadas as variações biológicas do ser humano) então ele, bem provavelmente não poderá ser feminista, mesmo…
Digo ‘bem provavelmente’ porque não sou dono da verdade… ainda não analisei bem toda esta armadilha intelectual.
Mas, o pressuposto para ser feminista (corrijam-me se eu estiver errado) é lutar pela igualdade de direitos do ser humano; Eliminar a supremacia de uns sobre outros, notadamente, a supremacia política/financeira/social -> social no sentido de ‘status quo’; então esta posição política, chamada, feminista, poderia ser adotada por um ser que não visse diferença de gênero no âmbito social.
Penso que a pessoa feminista há de aceitar a igualdade entre pessoas de quaisquer gêneros e transgêneros… seja do ponto de vista biológico, seja do ponto de vista da ‘identificação’ de cada ser, identificação esta que há de conceber ‘identificação nenhuma’, digo, conceber quaisquer deslocamentos fora ou entre os padrões binários, usualmente ‘aceitos’ na sociedade.
Ainda sobre este último aspecto, explico: há pessoas que não se identificam nem como homens, nem como mulheres, independentemente delas terem estas, aquelas ou um híbrido de características biológicas de macho e/ou fêmea.
Então, gênero é uma identificação pessoal que pode ser macho, fêmea ou neutro (para jogar no mesmo balaio, tudo o que não for ‘macho’ nem ‘fêmea’, “hétero-cis-binário-normativamente”, falando) da qual só o sujeito/agente pode dar conta.
Pessoas que aceitam isto, respeitam isto, compreendem isto ou estudam isto, ainda assim, podem não ser feministas. Podem ser ‘observadores’, por exemplo.
Feministas, ao meu ver, são pessoas que lutam pela igualdade desta miríade de possibilidades humanas em suas expressões naturais. Digo, na expressão natural do ser livre em ser livre do jeito que desejar, ou seja, que estas pessoas possam ter os mesmos direitos que quaisquer outras pessoas tenham. Se alguém pode casar, elas também podem. Se alguém pode mudar de nome, assinar seu nome, ser tratado por um pronome específico, elas também podem. Se alguém pode ser incluído no plano médico de outrem, se pode herdar ou partilhar bens de outrem, elas também podem! Se alguém pode vestir-se assim ou assado, ou despir-se ou usar um banheiro público, então elas também podem!
Acho que é disto que trata o feminismo enquanto movimento socio-político-cultural, em tempos modernos.
Sendo assim, o sujeito que empunha a bandeira do feminismo deveria, por sensibilidade, evitar nomear-se de um gênero, PORÉM, se esta pessoa está, justamente, lutando pelo direito das outras nomearem-se como quiserem, ele há de estar livre para nomear-se, também.
Mas note!!!!!! Desde que esteja nomeando-se ‘a si, mesmo’!!!
Se um militante do feminismo diz: “-Eu sou homem E acho…” ele está exercendo seu direito de nomear-se e de dizer o que acha – mesmo que seu achar seja uma estupidez, o que apenas servirá para revelar que ele é um estúpido [e talvez eu esteja sendo um estúpido]. Mas, se ele diz: “Nós, homens…” ou “Os homens…” ao invés de “Homens…” isso tudo pode acarretar terríveis conseqüências. Pode, inclusive, estar revelando uma falha de caráter do interlocutor. Ou pode estar revelando uma falta de domínio da língua portuguesa (e eu estou certo de que muitos lerão isto sem entender a diferença entre “os homens” e “homens” no início de uma sentença ou período).
Então, na MINHA opinião de ser humano, eu creio que quaisquer seres humanos podem ser feministas SE estiverem lutando pela igualdade de direitos.

Eu, particularmente, não me sinto confortável com a definição de “homem” para mim. Isto porque homens, em geral, fazem parte do grupo de pessoas opressoras que dominam o mundo desde há muito tempo. Assim, eu não quero ser confundido com tais pessoas.
Mas, eu PODERIA entitular-me ‘homem’, baseado em minha biologia e, mesmo assim, continuar lutando pela igualdade de direitos. Porém não farei isso (nomear-me “homem”). Não me agrada. Não quero. Não vou. Nem por isto vou dizer que sou outra coisa. Não sou nada. Sou um ser humano. E minha opção sexual (ou opções) não determina meu gênero ou des-gênero. Não importa. Importa se eu respeito as pessoas como pessoas.
Aqui, estou apenas defendendo o direito dos que, por ventura, entendam-se ‘homens’ e, mesmo assim, desejam a igualdade de direitos. São minoria, eu sei. De fato, não sei se existem. Mas quero crer que sim. Ou, pelo menos, quero defender o direito de existência de um ser, mesmo que ele não exista.
O fato de uma criatura parecer-se, externamente, com o que chamamos ‘homem’, segundo um estereótipo sócio-cultural-cis-hétero-binário-normativo, não a torna coisa alguma. O que uma pessoa ‘é’, é o que ela FAZ. Ou, algumas vezes, o que ‘deixa de fazer’. O ‘homem’ que não comete atos de ‘machismo’, por exemplo, já não é machista, mesmo que ele não faça nada para ser chamado de feminista.
Ele talvez não faça, por medo ou vergonha… mas, enquanto estiver assim, não pode ser acusado/condenado. É como o psicopata que AINDA não cometeu nenhum crime. Como acusa-lo de algo?

Se condenarmos os homens, excluindo-os do feminismo, apenas por serem homens, o que faremos com as pessoas trans* que se nomeiam “homens”? Assim que lhes for concedido o direito de serem tratadas como homens, deveremos excluí-las do movimento?
Aliás, feminismo (novamente, ao MEU ver) não é um movimento. Feminismo é uma posição político-social. Embasados nesta posição existem diversos movimentos… e diversos movimentos com esta base formam o movimento feminista como um todo.
Não importa quem são seus agentes, ainda que importe MUITO quem são seus agentes – eu adoro jogo de palavras!
Os agentes importam para dar voz, corpo e sentido aos movimentos. Mas o movimento, enquanto movimento: coisa que se movimenta, coisa que acontece, este independe do percentual de ‘tipos’ de pessoas envolvidas.
Obviamente, se o feminismo surgiu entre as mulheres, ele vai ser composto, majoritariamente por mulheres. Logicamente, à medida que seus efeitos foram sendo percebidos e que surgira a possibilidade de outras pessoas nomearem-se ‘mulheres’, mulheres e mulheres passaram a fazer parte do movimento.
E se o movimento expandiu-se para dar voz a quem não tinha voz, logicamente, novos timbres serão ouvidos neste grande grito.
E se há um grito, há quem deva ouvi-lo!
Há três ouvidos para escutar: O ouvido do flagelado, que precisa ouvir o chamado para unir-se ao Grito e fortalecê-lo; o ouvido dos opressores, que precisam saber que seu reinado está chegando ao fim e, finalmente, o ouvido do justo, esteja ele onde estiver, que precisa ser acordado para auxiliar o processo de transição à igualdade (e eu poderia citar Luther King, para dar forma a esta expressão).

Gritemos todos juntos!
Gritemos sem desprezar os timbres roucos que desejam afinar-se em coro.

Obs.: Expressões escritas são bastante difíceis de serem claras, algumas vezes, precisamos escrever um livro pra dizer algo. Então, gostaria de tentar esclarecer, aqui, que não estou tentando DEFINIR o que é feminismo, nem dizer como se DEVE fazer para ser feminista… não fui eu quem criou o termo ou os movimentos, ações feministas. Minhas expressões são de acordo com o que eu entendi, até agora, sobre esta coisa toda.
À medida que vou conversando com mais e mais pessoas, vou descobrindo cada vez mais, o que é este fenômeno… e vou aprendendo onde ou como eu posso inserir-me nele, seja para apoiar as outras pessoas, seja para receber minha parcela de compreensão e liberdade.
Sintam-se à vontade para criticar-me e orientar-me. Eu agradeço.

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